sábado, 30 de janeiro de 2010

É de vidro, dos mais vagabundos



Pensava em tantas coisas que a cabeça girava, feito quando me sentava sem intuito nenhum naquelas coisas que giram e que outras crianças sentam sem intuito também e acabam girando junto comigo.


Girava e me sentia enjoada, de tudo que passava e rodava e de tudo que já sei que passará. Era recomendável um filme, outro tipo de musica ou qualquer coisa que mudasse os tipos de pensamentos “girantes” que enjoavam a idéia de tê-los em mim.


Tudo parou e senti uma vontade que encheu minha boca de água. Os cookies da Etieny, ainda me lembro como o nome dela é escrito. Eles eram duros mas macios de morder, eram docinhos e impossíveis de se cansar. Havia algumas gostas de chocolate, mel, cereais, definitivamente não eram cookies. Era algo especial, que completava as manhãs na escola, todas sentadas no mesmo lugar, com as mesmas pessoas, um chão sujo e tão acolhedor. Me lembro de comprar pacotes e mais pacotes, comíamos no intervalo, na sala de aula, em casa.


Lembrar dos cookies, me fez perceber que a vendedora dos cookies eu posso achar tão fácil quanto achar alguma pirataria barata pela cidade. Que a escola eu posso rever, os outros que conviviam comigo também. Mas os cookies, esses eu nunca mais poderei saborear, e como pode ser tudo tão frágil assim.


A fragilidade das vontades me assusta. Era receita única, unicamente esquecida pela tal menininha da escola. Maldita hora que deixei a escola, a cidade, a calma, a sanidade. Poderia ter até hoje o pseudo cookie.


Acabei ficando mais deprimida do que poderia adivinhar. A idéia de que posso perder algo para sempre. Que ao escolher algumas coisas deixo para trás, pra sempre, algo que me adoçava tanto. E que nunca, nunca mais irá adoçar.


O doce que tinha dentro, foi apodrecendo, amargando, escurecendo.


Comecei a girar novamente. Muito, conseguia decifrar os objetos apenas por cores, azul, verde, alguma coisa se movimentando em branco. Minha boca se encheu de saliva, não era mais saudade do cookie, era enjôo, era pavor daquilo, que parecia tão único, mas era na verdade feito de vidro, dos mais vagabundos que se quer transparência me dava, não me dava nada, depois da boa impressão foi de cacos que me encheu.


Parei de rodar bruscamente, mais, mais uma vez.


As sensações, sim, as sensações, gritei! A saudade passa, a lembrança se confunde as fotos então, tão ilusórias quanto o show de sombras que vi semana passada.


As sensações não, ela não se confunde, ela não se perde, não se esquece. Não preciso nem fechar os olhos para me sentir mordendo aquele tipo de biscoito encantado, não me lembro ao certo do seu gosto, mas lembro exatamente da sensação que tinha toda vez que mordiscava os pequenos pedaços, separava os melhores de um lado da boca, os fazendo passar bastante pela língua, para sentir o máximo possível seu gosto. E quando os pedacinhos passavam pela garganta, iam bem de leve, enquanto os sentia descendo comentava o quanto aquilo era bom, o quanto ela tinha que fazer mais, e mais.


Como é assustador ter a certeza de que nunca mais, para sempre, eternamente. Não terei mais o biscoitinho.


Isso comprova, que por maior que você seja dentro de mim, e que nunca, para sempre, eternamente, irá viver em mim, um dia, qualquer um, eu posso nunca mais, para sempre, eternamente não te ter. E você tentando desperdiçar o pouquinho que nos resta, tão pouco, tão frágil.

F.r